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Empresas portuguesas aceleram investimento em inteligência artificial, mas falta governação interna

tech2026-08-20 · 4 min read · 21 reads

Um estudo recente revela que 43,1 por cento dos profissionais portugueses colocam a inteligência artificial como prioridade de investimento, embora poucas organizações tenham regras internas definidas. A Startup Portugal alerta ainda para a fuga de talento.

As empresas portuguesas estão a acelerar de forma clara o seu investimento em inteligência artificial, mas fazem-no muitas vezes sem terem definido regras internas para o uso desta tecnologia. Este é o retrato traçado por um estudo recente, que revela um contraste evidente entre a velocidade da adoção e a maturidade das políticas de governação dentro das organizações nacionais, num momento decisivo para a economia digital.

Um estudo revelador do mercado

Os dados resultam do estudo intitulado Leading the Future Economy, conduzido pela QSP Marketing Management and Research. A investigação baseou-se num inquérito online realizado a 290 profissionais ativos em Portugal, entre os dias 16 de abril e 8 de maio de 2026. A amostra procurou refletir a visão de quem ocupa posições de decisão e influência dentro do tecido empresarial português.

Segundo os resultados, 43,1 por cento dos inquiridos identificam a inteligência artificial como a principal prioridade de investimento para os próximos doze meses. Logo a seguir surge a tecnologia e a transformação digital, apontada por 34,1 por cento dos profissionais, enquanto a cibersegurança é considerada prioritária por 26,2 por cento, um sinal claro de onde as empresas pretendem concentrar recursos.

O fosso da governação interna

O grande paradoxo revelado pelo estudo reside na falta de regras claras. Apenas 21,2 por cento das organizações afirmam ter orientações formalizadas e bem definidas para o uso da inteligência artificial. Cerca de 30,5 por cento admitem ter regras ainda em desenvolvimento, ao passo que 19,3 por cento reconhecem não possuir qualquer tipo de orientação interna sobre como utilizar estas ferramentas no dia a dia.

Rosa Carvalho, responsável pela investigação de mercado da QSP, sublinha precisamente este descompasso. Na sua análise, os resultados evidenciam uma desconexão entre a rapidez com que a inteligência artificial está a ser adotada e a capacidade real das organizações para criarem políticas internas que acompanhem essa evolução, um risco que pode gerar problemas de conformidade e de segurança no futuro próximo.

As barreiras à adoção

O caminho para uma adoção plena da tecnologia continua marcado por obstáculos significativos. A resistência à mudança é apontada como o principal entrave por 33,1 por cento dos inquiridos, seguida de perto pela falta de conhecimento interno, referida por 31 por cento. As preocupações com a privacidade e a segurança pesam para 26,6 por cento, enquanto os elevados custos de implementação são citados por 24,1 por cento.

As expectativas quanto ao impacto no mercado de trabalho revelam uma visão dividida. Cerca de 32,8 por cento dos profissionais acreditam que a inteligência artificial irá sobretudo transformar as funções já existentes. Por outro lado, 24,7 por cento antecipam a eliminação de postos de trabalho, ao passo que apenas 15,8 por cento preveem a criação de novos empregos graças ao avanço desta tecnologia disruptiva.

No plano económico mais amplo, o sentimento é de cautela. Uma fatia de 42,1 por cento dos inquiridos espera que a economia se torne mais imprevisível nos tempos que se avizinham, enquanto 29,7 por cento antecipam uma economia mais digital. Ainda assim, 34,8 por cento manifestam a expectativa de um abrandamento económico, refletindo a incerteza que paira sobre o ambiente de negócios atual.

No seu conjunto, estes indicadores desenham uma fotografia de um mercado ansioso por avançar, mas ainda pouco preparado para o fazer de forma estruturada. O apetite pelo investimento em inteligência artificial convive com lacunas de conhecimento, ausência de regras claras e receios legítimos sobre privacidade e emprego, um equilíbrio delicado que as empresas terão de gerir com cuidado nos próximos meses para colher os benefícios da tecnologia.

O alerta da Startup Portugal

O ecossistema tecnológico português procura equilibrar a rápida adoção da inteligência artificial com regras internas mais claras. (Imagem ilustrativa)
O ecossistema tecnológico português procura equilibrar a rápida adoção da inteligência artificial com regras internas mais claras. (Imagem ilustrativa)

Para além dos números do investimento empresarial, o setor tecnológico português enfrenta um desafio estrutural relacionado com o talento. Miguel Aguiar, diretor executivo da Startup Portugal, avisa que a Europa está a ficar um bocadinho para trás na corrida à inteligência artificial. O responsável aponta como principais obstáculos a burocracia e os impostos, que considera serem muito altos no contexto nacional.

A retenção de talento surge como uma das maiores preocupações. Segundo Aguiar, muitos engenheiros formados localmente acabam por procurar oportunidades no estrangeiro, criando um paradoxo em que o país simultaneamente importa e exporta profissionais qualificados. O principal objetivo, sublinha, passa por conseguir reter esses talentos e evitar que o conhecimento se disperse por outros mercados mais atrativos.

Apesar das dificuldades, existem sinais de dinamismo e de vontade de afirmação internacional. A Startup Portugal levou 27 startups à Web Summit Rio de 2026 e apresentou 28 empresas num evento em Madrid, onde foram angariados cerca de 49,4 milhões de euros. Miguel Aguiar traçou ainda uma meta ambiciosa para a próxima década, a de ver definitivamente Portugal no mapa da inteligência artificial mundial.

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Joana Silva
2026-08-20 · 4 min read · 21 reads
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