Joana SilvaVIEW PROFILE →
A aposta verde: como a energia renovável faz de Portugal o novo íman dos data centers de IA
Enquanto Paris, Londres ou Frankfurt esbarram na falta de energia, Portugal surge como o mercado europeu emergente para as infraestruturas da inteligência artificial. A sua arma? Estabilidade energética e décadas de aposta nas renováveis num mercado avaliado em quase 4 mil milhões de dólares.
A corrida global à inteligência artificial não se joga apenas em algoritmos e chips, mas também num recurso muito mais terreno: a eletricidade. É precisamente neste ponto que a Europa enfrenta um estrangulamento crescente, e Portugal encontrou aí uma oportunidade de ouro para se afirmar no mapa tecnológico do continente.
Os grandes centros ficam sem energia
Os data centers, essas gigantescas instalações que alimentam a inteligência artificial, são autênticos devoradores de energia. O problema é que os mercados europeus mais maduros, como Paris, Londres, Frankfurt, Amesterdão e Dublin, começam a esbarrar em sérias limitações energéticas, incapazes de responder a esta procura voraz e sem fim.
Esta saturação está a obrigar os grandes investidores a olhar para novos horizontes, à procura de países que ainda tenham capacidade e estabilidade para acolher estas infraestruturas. E é exatamente nessa nova vaga de investimento, motivada pela IA e pelas restrições energéticas dos mercados tradicionais, que Portugal se posiciona.

A vantagem verde portuguesa
O grande trunfo nacional reside numa aposta feita ao longo de décadas: as energias renováveis. Portugal consolida-se como um mercado europeu emergente graças à sua estabilidade energética e a um longo historial de investimento em fontes limpas, fatores que o tornam particularmente competitivo aos olhos dos operadores internacionais.
Num momento em que a sustentabilidade deixou de ser um luxo para se tornar uma exigência, poder alimentar um data center com energia limpa é um argumento de peso. As grandes tecnológicas procuram cada vez mais reduzir a pegada de carbono das suas operações, e o perfil energético português encaixa quase na perfeição nessa ambição.
Um mercado a valer milhões
A dimensão desta oportunidade traduz-se em números concretos e impressionantes. O mercado português de data centers está avaliado em cerca de 3,89 mil milhões de dólares para o período entre 2026 e 2031, com Lisboa a destacar-se claramente como a localização preferida para a instalação destas infraestruturas.
Este apetite não passa despercebido aos grandes nomes do setor. Players de referência como a FF Ventures, a AtlasEdge, a Start Campus, além de novos entrantes como a EDC One e a própria Microsoft, concentram já os seus planos em torno da combinação vencedora entre energia renovável e infraestrutura dedicada à inteligência artificial.
Da ciência à economia
O investimento não se limita, porém, aos grandes gigantes privados, estendendo-se também ao domínio científico e académico. Está a ser construído um novo data center para o Centro Nacional de Computação Avançada no campus universitário de Azurém, em Guimarães, reforçando a capacidade nacional de investigação em áreas de ponta.
Este projeto específico representa um investimento global de 5,1 milhões de euros e tem a sua conclusão prevista para setembro. Trata-se de um sinal claro de que o país aposta não só em atrair capital estrangeiro, mas também em desenvolver competências e infraestruturas próprias para não ficar dependente do exterior.
Uma janela de oportunidade
O contexto global só reforça a importância deste momento. Segundo um estudo da consultora JLL, a inteligência artificial poderá quase duplicar a capacidade instalada de data centers a nível mundial, dos atuais 103 gigawatts para cerca de 200 gigawatts até 2030, altura em que a IA deverá representar metade de toda essa capacidade.
Diante de uma expansão tão colossal, cada país procura garantir a sua fatia deste bolo estratégico. Portugal parte com uma vantagem inesperada, transformando uma opção ambiental de longo prazo num ativo económico de primeira linha, precisamente quando o resto da Europa mais precisa de espaço e de energia.
Resta agora ao país saber aproveitar esta janela de oportunidade sem descurar os desafios, desde a gestão da água consumida por estas instalações até à partilha equilibrada da energia entre a indústria e os cidadãos. Se souber fazer as perguntas certas, Portugal poderá consolidar-se como uma peça central da revolução da inteligência artificial na Europa.






