Joana SilvaVIEW PROFILE →
Sines, o novo coração da IA na Europa: Microsoft investe 10 mil milhões em Portugal
Com refrigeração a água do mar, cabos submarinos e energia renovável, o Start Campus em Sines transforma-se num dos maiores polos de infraestrutura de inteligência artificial da Europa.
Enquanto grande parte da atenção sobre inteligência artificial em Portugal se concentra em modelos de linguagem e startups, uma revolução silenciosa mas colossal está a acontecer no litoral alentejano. A cidade de Sines está a transformar-se rapidamente num dos maiores polos de infraestrutura de IA de toda a Europa.
No centro desta transformação está o Start Campus, um gigantesco campus de centros de dados concebido especificamente para a escala exigida pela inteligência artificial. O projeto coloca Portugal, um país frequentemente visto como periférico no setor tecnológico, no mapa das grandes potências digitais do continente.
Um investimento de dimensão histórica
A confirmação do potencial de Sines chegou com um anúncio de peso. A Microsoft revelou planos para investir dez mil milhões de dólares em centros de dados de inteligência artificial na região, num projeto desenvolvido em parceria com a Start Campus e a empresa Nscale, reforçando a posição de Portugal no setor.
Este investimento traduz-se em números muito concretos no terreno. Fala-se de cerca de 230 milhões de euros aplicados em infraestrutura e de mais 465 milhões de euros destinados à construção de um novo edifício, um esforço financeiro que sublinha a seriedade e a escala da aposta em solo português.
A ambição do campus é impressionante. Quando estiver plenamente concluído, o Start Campus deverá integrar seis edifícios, com uma capacidade de computação que poderá atingir os 1,2 gigawatts. Para já, apenas o primeiro edifício, o SIN01, se encontra em funcionamento, tendo arrancado em janeiro de 2025.
Uma localização estratégica única

A escolha de Sines não foi um acaso, mas o resultado de vantagens geográficas difíceis de replicar. A localização oferece dois benefícios pré-existentes decisivos: ligações diretas a cabos de fibra ótica submarinos internacionais e a bacia de captação de água do mar da antiga central a carvão da região.
Essa bacia de água do mar é fundamental para uma refrigeração sustentável dos equipamentos, um dos maiores desafios dos centros de dados modernos. Reaproveitar a infraestrutura de uma antiga central a carvão para alimentar a tecnologia do futuro representa também um poderoso símbolo de transição energética.
A capacidade autorizada de até 1,2 gigawatts oferece uma escala dificilmente igualável noutro ponto do continente. Num momento em que mercados maduros como Paris, Londres, Frankfurt, Amesterdão e Dublin enfrentam restrições energéticas, Portugal surge como uma alternativa competitiva e cheia de espaço para crescer.
Chips de ponta e energia verde
A potência de cálculo instalada em Sines será verdadeiramente de vanguarda. A Nscale anunciou a instalação de mais de 66 mil placas gráficas Nvidia Rubin no centro de dados a partir de 2027, um número que ilustra a dimensão da capacidade de processamento que ali será concentrada.
Este acordo assenta numa base já sólida. No primeiro edifício do campus, foram implantadas mais de 12.600 unidades de processamento gráfico Nvidia Blackwell Ultra ao serviço da Microsoft, demonstrando que Sines já está a operar com a tecnologia mais avançada disponível no mercado global.
A sustentabilidade é outra peça central do projeto. Em fevereiro de 2026, a Start Campus assinou um acordo com a EDP para associar o consumo do centro de dados à construção de novas centrais de energia renovável, nomeadamente parques solares e eólicos, garantindo um crescimento mais limpo.
No conjunto, Sines simboliza uma nova vaga de investimento em centros de dados impulsionada pela inteligência artificial. Se souber aproveitar esta oportunidade, Portugal poderá deixar de ser apenas consumidor de tecnologia para se afirmar como uma infraestrutura crítica da economia digital europeia nas próximas décadas.






